Do corpo que faz poema : uma análise de quatro cantos de marinheiro
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Data
2025Orientador
Co-orientador
Nível acadêmico
Doutorado
Tipo
Assunto
Resumo
A presente tese ocupa-se em analisar e discutir o funcionamento de cantos de trabalho de bordo, ou cantos de marinheiro, em contexto francês. Os cantos de marinheiro tradicionalmente acompanham os trabalhos a bordo do navio e aparecem como meio de coordenar o trabalho coletivo. De modo a entender o funcionamento desses cantos, foram analisados dois cantos de cabrestante e dois cantos para içar a partir de quatro captações de performances em duas edições (2015 e 2016) do Trophée Capitaine Hayet. ...
A presente tese ocupa-se em analisar e discutir o funcionamento de cantos de trabalho de bordo, ou cantos de marinheiro, em contexto francês. Os cantos de marinheiro tradicionalmente acompanham os trabalhos a bordo do navio e aparecem como meio de coordenar o trabalho coletivo. De modo a entender o funcionamento desses cantos, foram analisados dois cantos de cabrestante e dois cantos para içar a partir de quatro captações de performances em duas edições (2015 e 2016) do Trophée Capitaine Hayet. A premiação é promovida pelo Office pour le Patrimoine Culturel Immatériel e busca sensibilizar acerca dos cantos de marinheiro enquanto patrimônio cultural imaterial francês. Foram desenvolvidos três modelos distintos de transcrição, de modo a considerar, em diferentes níveis de destaque, aspectos fonético fonológicos, gestuais e entoativos de cada execução. Ao entender que o gesto é origem dos cantos e seu objeto final, pôde-se perceber como ele aparece vinculado à pulsação, que acaba por repercutir nos cantos através da métrica, mas também de ecos vocálicos e consonantais, o que aparece tanto no texto como na forma de entoar as canções – geralmente organizadas responsorialmente. Partindo da relação de continuidade entre gesto, texto e entoação nesses cantos, discute-se como esses três elementos constituem três faces diferentes de um mesmo discurso vinculado ao fazer de marinheiro. Passando por uma leitura do pensamento de Henri Meschonnic e de sua compreensão de ritmo e de antropologia histórica de linguagem, a presente tese relê a relação entre métrica e ritmo, considerando o fôlego e o gesto como parte da criação dos poemas-trabalho de marinheiro. Discute-se, igualmente, o papel das onomatopeias nos textos que compõem o canto e os efeitos do hitch sobre a dinâmica do trabalho de bordo. Chegou-se, assim, à compreensão de que gesto, onomatopeia e entoação constituem, conjuntamente, um discurso de marinheiro e um poema que é proposto pelo corpo coletivo de marinheiro. Esse corpo aparece como um dos principais responsáveis por uma concepção de marinheiro e de trabalho de bordo que se desdobra em uma literatura de marinheiro: uma continuidade de um saber fazer de marinheiro através do tempo. Entende-se, finalmente, que a sílaba, ainda que responda a uma métrica necessária à execução do trabalho de marinheiro, também se constitui como o morfema, isto é, um princípio de unidade que atravessa o corpo, a langue e a voz verbalizada, chegando ao discurso e ao fazer marinheiro. Esboçou-se, assim, uma concepção de sílaba-morfema, a partir de uma compreensão de ritmo que se organiza no gesto de trabalho e no semiótico postulado pela onomatopeia no interior desses cantos. ...
Résumé
La présente thèse s’attache à analyser et à discuter le fonctionnement des chants de travail à bord, ou chants de marins, dans un contexte français. Les chants de marins accompagnent traditionnellement les travaux à bord du navire et apparaissent comme un moyen de coordonner le travail collectif. Afin de comprendre le fonctionnement de ces chants, deux chants de cabestan et deux chants de hissage ont été analysés à partir de quatre captations de performances lors de deux éditions (2015 et 2016) ...
La présente thèse s’attache à analyser et à discuter le fonctionnement des chants de travail à bord, ou chants de marins, dans un contexte français. Les chants de marins accompagnent traditionnellement les travaux à bord du navire et apparaissent comme un moyen de coordonner le travail collectif. Afin de comprendre le fonctionnement de ces chants, deux chants de cabestan et deux chants de hissage ont été analysés à partir de quatre captations de performances lors de deux éditions (2015 et 2016) du Trophée Capitaine Hayet. Ce prix, organisé par l’Office pour le Patrimoine Culturel Immatériel, vise à sensibiliser au rôle des chants de marins en tant que patrimoine culturel immatériel français. Trois modèles distincts de transcription ont été développés afin de prendre en compte, à différents niveaux de mise en valeur, les aspects phonétique-phonologiques, gestuels et intonatifs de chaque exécution. En comprenant que le geste est à la fois l’origine et l’aboutissement des chants, on a pu observer comment il se rattache à la pulsation, qui se répercute dans les chants à travers la métrique, mais aussi par des échos vocaliques et consonantiques, perceptibles aussi bien dans le texte que dans la manière de chanter – généralement organisée sous forme responsoriale. Partant de la continuité entre geste, texte et intonation dans ces chants, on discute comment ces trois éléments constituent trois faces différentes d’un même discours lié au faire marin. En s’appuyant sur une lecture de la pensée d’Henri Meschonnic et de sa compréhension du rythme et de l’anthropologie historique du langage, la thèse propose une relecture du rapport entre métrique et rythme, en considérant le souffle et le geste comme faisant partie de la création des poèmes-travail de marin. On y discute également le rôle des onomatopées dans les textes qui composent le chant et les effets du hitch sur la dynamique du travail à bord. Il en ressort que le geste, l’onomatopée et l’intonation constituent conjointement un discours marin et un poème proposé par le corps collectif des marins. Ce corps apparaît comme l’un des principaux responsables d’une conception du marin et du travail à bord qui se déploie dans une littérature de marin: une continuité d’un savoir-faire marin à travers le temps. Enfin, on comprend que la syllabe, bien qu’elle réponde à une métrique nécessaire à l’exécution du travail marin, se constitue aussi comme morphème, c’est-à-dire un principe d’unité qui traverse le corps, la langue et la voix verbalisée, jusqu’au discours et au faire marin. Ainsi se dessine une conception de syllabe morphème, à partir d’une compréhension du rythme qui s’organise dans le geste de travail et dans le sémiotique instauré par l’onomatopée au cœur de ces chants. ...
Abstract
This thesis sets out to analyze and discuss the functioning of shipboard work songs, or sea shanties, in a French context. Sea shanties traditionally accompany tasks on board the ship and serve as a means of coordinating collective work. In order to understand the functioning of these songs, two capstan shanties and two hauling shanties were analyzed, based on four recorded performances from two editions (2015 and 2016) of the Trophée Capitaine Hayet. This award, organized by the Office pour le ...
This thesis sets out to analyze and discuss the functioning of shipboard work songs, or sea shanties, in a French context. Sea shanties traditionally accompany tasks on board the ship and serve as a means of coordinating collective work. In order to understand the functioning of these songs, two capstan shanties and two hauling shanties were analyzed, based on four recorded performances from two editions (2015 and 2016) of the Trophée Capitaine Hayet. This award, organized by the Office pour le Patrimoine Culturel Immatériel, aims to raise awareness of sea shanties as part of France’s intangible cultural heritage. Three distinct models of transcription were developed, so as to highlight, at different levels, the phonetic-phonological, gestural, and intonational aspects of each performance. By understanding gesture as both the origin and the final object of the songs, it was possible to observe how it is linked to pulsation, which resonates in the songs through meter, but also through vocalic and consonantal echoes. These echoes appear both in the text and in the manner of singing – generally organized in a responsorial form. Building on the continuity between gesture, text, and intonation in these songs, the discussion shows how these three elements constitute three different facets of the same discourse tied to the practice of being a sailor. Through a reading of Henri Meschonnic’s thought, and his understanding of rhythm and the historical anthropology of language, this thesis revisits the relationship between meter and rhythm, considering breath and gesture as integral to the creation of sailor work-poems. It also examines the role of onomatopoeia in the texts that make up the songs, and the effects of the hitch on the dynamics of shipboard work. This leads to the understanding that gesture, onomatopoeia, and intonation jointly constitute a sailor’s discourse and a poem put forth by the sailors’ collective body. This collective body emerges as one of the main agents shaping a conception of the sailor and of shipboard work, which unfolds into a sailor’s literature: a continuity of maritime know-how through time. Finally, it is understood that the syllable, although responding to the metrical demands necessary for carrying out seafaring tasks, also takes shape as a morpheme, that is, a principle of unity that traverses the body, the language, and the verbalized voice, culminating in discourse and maritime practice. Thus, a conception of the syllable-morpheme is outlined, based on an understanding of rhythm that is organized in the work gesture and in the semiotic dimension introduced by onomatopoeia within these songs. ...
Instituição
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Instituto de Letras. Programa de Pós-Graduação em Letras.
Coleções
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Linguística, Letras e Artes (3082)Letras (1892)
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